Invertendo os papéis

João é um jovem branco, heterossexual, cis, de classe média; não é bonito nem feio, tem um emprego suportável e um ou dois amigos próximos, com quem joga videogames e sai para beber; João é fã de filmes clássicos, música alternativa e super-heróis de histórias em quadrinhos. A vida de João era estável e monótona, até que ele conheceu Maria. Maria também poderia ser considerada uma jovem “normal” – isto é: branca, cis, heterossexual, de classe média e, é claro, linda – mas não, ela não é como as outras! João certamente não se apaixonou por sua aparência de boneca, mas pelo fato de que, olha só! Ela gosta das mesmas coisas que ele! Quem iria dizer que uma moça tão linda quanto ela fosse ter uns gostos tão estranhos, não é mesmo? E ela adora comer! Mas, é claro, sem engordar um quilo sequer. Como ela consegue?

João pensou que nunca fosse possível as coisas funcionarem entre os dois, porque, apesar de tudo, ele era só um cara qualquer e Maria era uma menina empolgada e aventureira, praticamente seu oposto. Mas, como se fosse mágica, Maria se interessou pela rotina chata de João e por tentar fazer ele ver um lado mais bonito da vida, e assim se apaixonou por ele.

Agora me diga em quantos filmes, livros, séries, etc. você consegue enxergar essa história? Se fizer um pouco de esforço, até em Game of Thrones existe um pouco disso (Jon Snow e Ygritte, alguém?).

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“Meu vestido é feito da mais pura seda de Tralalalaleeday”

E em quantos desses casos o cara no final acaba sendo um babaca, caso a moça não corresponda seus sentimentos? Com certeza maioria desses personagens também são daquele tipo que acredita na mitológica “friendzone” – e não para de reclamar dela.

Quando eu era mais nova eu costumava adorar esse tipo de história – porque eu me identificava com os caras. Sim, mesmo sendo menina. Eu me identificava com eles, torcia por eles, tomava as dores deles, porque eu realmente entendia como era estar naquele lugar. Perdi a conta de quantas personagens femininas incríveis eu odiava quando mais nova por causa dessa identificação. Hoje percebo como esses caras são irritantes e que não existem mulheres desse jeito idealizado que eles tanto correm atrás, e mesmo que elas existissem eles não mereceriam elas. Mas algo dentro de mim ainda sente as dores deles.

Esses dias me peguei me identificando até com – vejam só – o Rei Gelado, de Hora de Aventura. Para quem não sabe, o Rei Gelado é a versão de desenho animado daquele “cara legal”, aquele que não sabe aceitar um não e que reclama da friendzone. E então eu me assustei comigo mesma, com certeza tem algo de errado aí. Será que eu sou tão perseguidora e abusiva assim, ou só me sinto assim por ser uma mulher em uma situação que, normalmente, é vivida por um homem? “Que situação? ” Você pergunta. Então senta que lá vem história.

Eu me apaixonei recentemente, e foi tudo como num filme. Eu vi ele na festa de uma amiga, e me proibi sair de lá antes de conversar com ele. Depois de muita luta, eu acabei puxando assunto, algo totalmente aleatório, como o fato do bolo ser de coco e não de chocolate. Como já era final da festa, conversamos muito pouco, mas ele me adicionou no Facebook – o que fez meu coração acelerar. Por semanas eu ficava encarando aquela bolinha verde na frente do nome dele no chat criando coragem para, de novo, puxar algum assunto. Até que um dia, depois dele já ter curtido e comentado alguns posts meus, eu novamente falei com ele. E nós literalmente conversamos durante dia inteiro. E no dia depois. E no dia depois.

Depois de umas duas semanas já dava pra perceber que ele tinha criado um certo laço comigo, pegou intimidade e confiança rápido e certamente já me considerava amiga. Mas eu, com a visão obliterada por um coração desesperado, ainda não tinha certeza se ele gostava de mim como “algo mais” ou não –  mesmo ele nunca tendo dado sinais de que sim. Até que eu não aguentei mais tanta dúvida e tanta expectativa e resolvi falar para ele o que eu sentia, de maneira mais fria possível pra não assustá-lo. Ele disse que já tinha notado isso havia um tempo, e depois disse a seguinte frase “Eu sei que é clichê, mas o problema não é você, o problema sou eu. Eu já gosto de outra pessoa.” E sabe o que eu falei depois? Eu pedi desculpas. E até ele mesmo achou que não tinha nada a ver eu fazer isso, afinal, eu não posso controlar essas coisas. Eu já tinha avisado que não queria que isso mudasse nossa amizade, então disse que pedi desculpas porque eu notei que talvez eu mesma poderia mudar de atitude com ele, o que deixou ele triste, afinal, ele gosta muito de mim como amiga. E então eu chorei por algumas noites seguidas e logo depois passou – aliás, minutos depois da “declaração” a gente já estava conversando como se nada tivesse acontecido. E continuamos assim por algum tempo, até eu decidir cortar relações, porque não aguentava mais ser a raposa da fábula de Esopo, “A raposa e as uvas”. No final, de novo caí no estereotipo do nice guy.

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“Eu só quero ser amado”

É aí que me vêm as dúvidas: e se fosse ao contrário, se tivesse sido ele quem ficou perdidamente apaixonado por mim, procurando em todas as minhas mensagens um sinal nas entrelinhas dizendo que sim, eu gostava dele do mesmo jeito? Ele seria um fofo, um pobre coitado, não é mesmo? Coitadinho, foi iludido por aquela vadia sem sentimentos! Mas pelo menos ele ganhou uma lição de vida, não é?

E eu? Ah, sou apenas mais uma boba iludida. Que idiota, não é mesmo? De pensar que, algum dia, ele fosse gostar de mim.

IMG_6057.JPGSobre a autora:Lydia Spinassé é canceriana e tem ascendente em gêmeos, ama desenho animado aos 18 anos e cursa jornalismo na UFES, apesar de sonhar em ser diretora. Passa maior parte do seu tempo com o fone de ouvido e é viciada em escrever, desenhar e comer chocolate. Pode ser contactada através do email lydia.spb@hotmail.com.

*Publicado originalmente no blog “Sigamos Juntas“.

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